Afinal, o que é “importante e maior” para você?

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Inversão de valores, de significados e de importância…

 

Uma conversa entre eu e uma colega:

– Oi, tudo bem? – ela disse.

– Oi, sim, estou bem. E Você?

– Tudo certo. E, aí, como estão as coisas?

– Sabe a Farmácia X? Então, estou trabalhando lá. – informei. – Comecei na semana passada.

– NOSSA. QUE ÓTIMO! – ela comemorou. – PARABÉNS!

Eu ri e confirmei:

– Lá é bom.

– Que ótimo que você conseguiu. – sorriu. – Agora você vai saber o que é dormir cedo no final de semana.

Nada respondi. Ela continuou:

– Eu, por exemplo, dormi a tarde INTEIRA. Só que estou triste porque eu poderia ter dormido mais. – a menina observou minha reação. – Porque amanhã é segunda.

E, de novo, o silêncio me consumiu. Ela sorriu nervosa.

– Na verdade, eu já sei o que é isso. – objetei. – Mas de qualquer forma eu não concordo em usar a folga para ficar dormindo. Para mim ela deve ser usada para fazer algo importante e maior para cada um. Alguma coisa que faça a gente crescer.

– Concordo. Mas eu já fiz isso à semana inteira! EU TRABALHO E ESTUDO DE SEGUNDA À SEXTA. Então eu mereço um tempinho para dormir.

– Sim. – confirmei com a cabeça.

A conversa acabou por aí.

Percebo que não há comunicação possível. É só mais uma conversa na qual eu não consigo dizer o que eu quero dizer. E sim eu sei o que quero dizer. Mas eu também sei que não serei entendido; por essa razão me calo.

A partir daí a conversa começa em minha mente… Sim, trabalhar e estudar são importantes. Mas não, não me refiro a isso. Isso está tão longe do que quis dizer com “importante e maior” que nem sequer consigo ter a energia de tentar dizer a ela o que estou querendo dizer. Por exemplo, uma pedra. Sim, uma pedra é uma pedra, mas uma pedra representa tanto o que sinto pelo mundo e a vida que no exato momento em que penso sobre o que é uma pedra a pedra deixa de ser pedra e passa a ser tudo. Porque tudo o que existe é muito mais do que aparenta ser. Então sim, eu quis sim dizer a ela que uma pedra não é só uma pedra. Mas ao perceber que não seria entendido eu me recuso a continuar com o que se seguiria se eu colocasse de fato tais pensamos em forma de palavras naquela conversa.

Sim, eu gostaria de mostrar a ela que sou apaixonado por pedras. Mas ela não entenderia. Então ao mesmo tempo em que quero dizer a ela tudo que significa pra mim, o que é importante e maior, sinto um peso caindo sobre minha cabeça ao começar a pensar como eu explicaria a ela sobre as pedras, porque uma pessoa que considera estudar e trabalhar como sendo o que é importante e maior jamais entenderia o que as pedras têm a dizer. Não, sinto que ela não as ouviria. E isso é tão triste, porque as pedras têm tanto a dizer, que no momento em que elas começassem a falar tal garota começaria a se apaixonar também por elas, assim como eu. Mas não, ela não entenderia a língua das pedras.

A questão é: uma pessoa qualquer, essas que consideram estudar e trabalhar o que há de mais nobre e maravilhoso na terra. O tipo de pessoa que assiste TV. Esse ser que acorda, trabalha, estuda, come, bebe e caga. Sim, esse ser que se masturba com frequência. Esse ser que diz entender de política. Essa pessoa que diz se importar com o planeta. A pessoa que agradece a Deus usando o Facebook. O tipo de pessoa que quer vencer na vida. Um típico filho do sistema. Um profissional assalariado. 40 horas semanais. 30 dias de férias anuais. SIM, o tipo de pessoa que vai ao Shopping Center aos domingos… Essa pessoa, esse ser ao ficar de frente a uma pedra conclui que tal pedra é uma coisa. Dizem: isso é uma pedra. Ponto. Definem assim a tal criação divina como sendo o que aparenta ser aos seus olhos. Nada mais. Nem sequer deram à coitadinha uma oportunidade de explicação.

Não. Não pegaram a pedra na mão. Não escutaram o que ela tinha a dizer. Também não escrevem nada sobre. Nem um poema. Nenhum comentário. Nem sequer olharam-na de perto. Ou tacaram-na para longe. NÃO, NADA.

É verdade que cada pessoa tem opiniões diferentes sobre o que é “importante e maior” para ela. E eu respeito isso. Só que mesmo concordando e entendendo, sinto uma agonia grande em perceber que a maioria das pessoas se satisfazem com o pouco. E aqui não me refiro ao pouco do simples. Não ao pouco relacionado a viver com o que se precisa. Mas sim ao pouco que espera dessa vida. O valor distorcido que dão às coisas. Porque quando eu digo que não quero dormir na folga não significa que eu não quero, não posso, ou não irei dormir em minha folga. Na verdade, não tem nada a ver com isso. O que digo que é não necessariamente é o que é. Entende?

Não se trata de fazer algo diferente ou novo, mais ou menos ousado… Mas sim de fazer o que se quer fazer. Qualquer coisa. Eu falo de poesia. Eu falo do NADA. Eu falo de embriaguez. Eu falo de rede e um bom livro. Eu falo de café quente. Eu falo de fumar maconha com seu melhor amigo na casa dele, e chapados correr contra o tempo para tirar o cheiro forte no ar porque a mãe dele está chegando. Eu falo de namoro no portão. Eu falo de ir pescar e voltar para casa sem peixe algum, mas cheio de histórias e boas lembranças. Eu falo do banal. Eu falo de alegria. Eu falo de ficar juntinho do meu amor. Eu falo de jogar conversa fora. Eu falo do errado. Eu falo de loucura. Eu falo de subir em árvores e brincar com os animais. Eu falo de banho de mangueira… Eu estou falando de ser infinito no AQUI E AGORA. Estou falando de adrenalina no sangue. Estou falando do perigo da morte. De seguir para o norte. De seguir na sorte. De ser forte. Eu estou falando de rir com os Deuses. De se fazer tudo. Ou não fazer porra nenhuma. Eu estou falando do desagregamento de todos os sentidos.

Eu falo de escrever silêncios e noites. De anotar o inexprimível. Eu falo de foder. Eu falo de criar todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas. Eu falo de criar o novo. Novas flores, novos astros, novas carnes, novos idiomas… Eu falo de dançar sem motivo algum. Falo do inesperado. EU FALO DE VOCÊ QUE ESTÁ LENDO ISSO AGORA. DE SAIR POR AQUELA PORTA, E FAZER ACONTECER, SEJA LÁ O QUE ISSO SIGNIFIQUE.

Eu estou falando de não aceitar o que é imposto. De mudar. De aprender. De ser. Eu estou falando… Nada, esquece.


 

Notas: A questão não é o certo x errado, ou o jeito melhor de aproveitar a vida. Alan Watss fala sobre isso muito bem; sim, existe o que é correto e o que é errado em várias escalas, tem a questão da lei. O que consideramos certo e errado como sociedade… Existem muitas formas diferentes de olhar pra isso. Quando penso e escrevo nesse contexto sobre a vida, sou como Charles Bukowski e Jack Kerouac: eles em momento algum queriam mudar nada. Quando dizemos que alguém vive de uma forma errada estamos dizendo que existe uma certa, mas, não existe. Então, não. Eu não considero os valores das pessoas errados. Apenas diferentes. Eu acho sim que eles não sabem aproveitar a vida ao máximo. Mas quem decide isso são eles. Certo? Afinal, a vida está sempre em mudança. Tudo muda muito antes da gente existir e continuará mudando depois de nós. Ou seja, não temos o direito nem a capacidade de querer mudar o mundo ou as pessoas. MESMO, mudando. Não há certo ou errado, nem melhor na vida, nem pior. Mesmo que tais coisas existam, não cabe a nós decidir algo. Não acabe a nós estabelecer nada; já há tanta regra pré-estabelecida, para quê mais?

Por: Ian Navaho.

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