Crônica: A última carta de amor

aucdaopost

Miguel era um garoto calmo, inteligente e sobretudo, pensativo. Um típico observador passivo do mundo à sua volta. Ele gostava de observar a maneira como o vento batia nas folhas secas das árvores antigas, que soavam como resquícios do outono. Gostava do simplório barulho dos pássaros que sobrevoavam a sua casa pela manhã e do cheiro do café que sua mãe preparava todos os dias, num gesto amoroso de “bom-dia”.

Gostava de fixar os olhos no céu assim que largava da escola, por volta das 5h da tarde, e contemplá-lo, num misto de admiração e orgulho. E gostava ainda mais de observar as pessoas e seus comportamentos.

Aos 15 anos, Miguel encontrou o amor de sua vida. Mas o perdera rapidamente. Hoje, aos 40, deu-se conta de que nada preencherá o vazio em seu peito, causado pelo amor. 

Com o corpo tomado pelo álcool e fragmentos de algumas drogas, Miguel decidira pôr no papel aquilo que não saía do seu peito doente:

“Oi, Gabriel.

Eu até seria côrtes e perguntaria como você está, mas confesso que tenho medo da resposta. E se você estiver super bem, casado e com filhos a alegrar e colorir sua vida? Na verdade, tenho quase certeza de que você seguiu seu rumo e progrediu (quanto a sonhos, carreira, família…) enquanto eu parei no tempo.

Minha rotina é composta por lamentações e suposições de como seria o meu futuro ao seu lado, e como seria bom me sentir completo novamente. É masoquista, eu sei. Mas já não posso mais controlar a dor que sinto; é irônico que o amor seja capaz de causar tanto sofrimento.

No Ensino Médio, eu te acompanhei durante três longos anos. Mesmo que de longe. Mesmo que você não percebesse. Mesmo que eu apenas te observasse.

O teu sorriso sempre me fascinou, a maneira como seus olhos comprimiam levemente quando você o fazia e principalmente o quanto era fofo seu delicado gesto de afastar dos olhos os cabelos que lhe caíam no rosto. Por tempos arquitetei planos para me aproximar de você, mas eles nunca se concretizaram. Não tive coragem suficiente. Não agi. Não saí do meu estado inútil de comodismo. E a cada dia que passa, sinto cada vez mais as consequências das minhas não ações.

Ah, Gabriel… 

É tanta coisa que se consome dentro de mim… E eu não posso parar de me ver como um completo imbecil por ter deixado tudo isso acontecer. Após 25 anos, percebi que te perdi para sempre. Não há volta, não há solução. Amei-te calado, fingindo não sentir nada… E aí você escapou de mim antes mesmo de ter a chance de ser meu, como a mais límpida água dum rio que fugiu por entre os meus dedos antes mesmo que eu sequer pensasse em tomá-lo.

Meu coração sempre te pertenceu, Gabriel. Só é uma pena que você nunca saiba disso. Não sei se foi a minha timidez, o medo da Homofobia ou simplesmente o temor que você acabasse por se afastar de mim, embora nunca estivesses realmente perto.

Eu te amei demais. E sofri em dobro. 

Um beijo,

Alguém que conheceu o inferno graças ao amor.”

 

 

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