A humanidade é desumana

beratriz

O post de hoje seria sobre um assunto completamente diferente. Seria alegre e poético. Eu realmente queria estar alegre hoje… Mas não dá. Não enquanto feminista. Não enquanto mulher. Não enquanto cidadã. Não enquanto ser que sente e pensa. Não enquanto ser humano. Não enquanto não há lugar seguro quando se é mulher. Não enquanto uma mana de 16 anos é estuprada por 33 homens ao mesmo tempo.

“O caso da menina estuprada por 33 homens, prova ainda mais o que é o papel do patriarcado; odiar as mulheres.”

O estupro dela não foi motivado por prazer… O estupro foi incentivado por misoginia, pelo ódio que a sociedade patriarcal tem com as mulheres. E também não foi motivado por doenças psicológicas, afinal, que doença atingiria 33 homens ao mesmo tempo? Esses homens são filhos saudáveis do patriarcado, que vieram para nos lembrar de que todo homem é um estuprador em potencial.

– O que é ser um estuprador em potencial?

Quando dizemos “O Brasil tem potencial para ser a maior economia mundial” queremos dizer que o Brasil tem recursos para ser a maior economia mundial, mas ele não é. A mesma lógica deve ser aplicada aos homens. Um homem tem autoridade com as mulheres (quando estamos numa rua sozinhas e sentimos medo quando um homem se aproxima; isso é a autoridade que ele exerce), ele tem proteção do patriarcado (quando alguém pergunta “com que roupa a mulher estava?”, a pessoa está defendendo o estuprador). Tudo isso não quer dizer que todos os homens estupram; quer dizer que eles podem estuprar, por isso, todo homem é um estuprador em potencial.

Estupros não são casos isolados e independem de roupa, local, ou qualquer justificativa que tentem lhe dar. Trata-se de um crime hediondo e injustificável. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 67% dos casos de violência entre as mulheres são cometidos por parentes próximos ou conhecidos das famílias; 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes e apenas 10% dos estupros são notificados. Ou seja, a maioria dos agressores não é punida. Por isso, precisamos falar de violência contra a mulher, seja ela física e/ou psicológica.

Milhares de mulheres são violentadas todos os dias. E acrescento: não é apenas fulana ou ciclana, somos todas nós. Somos estupradas quando passamos na rua e recebemos cantadas e assobios. Somos estupradas quando não saímos sozinhas à noite, com medo de encontrar algum homem pelo caminho. Somos estupradas quando alguém faz uma piadinha machista e as outras pessoas, ignorantemente, reproduzem. Somos estupradas quando usamos a roupa que nos convém e a sociedade, em massa, julga-nos. Somos estupradas ao dizer “não“, e o resto do mundo entender como “sim“. Somos estupradas quando a mídia romantiza abuso sexual. Somos estupradas quando há uma inversão de valores e a culpa recai sobre a vítima, quando na verdade a vítima jamais é a culpada. Somos estupradas quando nos embebedam e tentam tirar proveito de nosso estado alcoólico.

Somos estupradas quando tentamos sair de um relacionamento abusivo e acabamos agredidas e, em último caso, mortas. Somos estupradas quando tentamos ter voz dentro de nossa própria casa e ter autoridade sobre o nosso próprio corpo e o patriarcado grita “não!” na nossa cara. Somos estupradas quando um comercial de televisão que mostra que a mulher é um mero objeto de prazer e onde ela é extremamente sexualizada por motivos incabíveis é assistido e aplaudido por milhares de pessoas. Somos estupradas novamente quando a Igreja dita que estuprador pode ser perdoado, mas mulher que aborta, não. Somos estupradas quando a indústria pornográfica propaga a ideia de que o corpo da mulher é usado tolamente para sanar fetiches sexuais masculinos e que o prazer dela não importa. Só lhe cabem a submissão e a obediência. Somos estupradas quando a nossa cultura afirma que as meninas precisam se comportar como mocinhas para serem respeitadas. Somos estupradas quando mulheres livres são vistas como sinônimo de putas.

No entanto, não aceitaremos mais sermos silenciadas. Resistimos e lutaremos contra o patriarcado, a cultura do estupro, a misoginia e o machismo como um todo. Só pararemos de falar sobre estupro quando os estupros acabarem. É pela vida das mulheres! Somos as netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar.

“Minha prece às mulheres do século XXI: endureçam seus corações e aprendam a matar.” – Andrea Dworkin.

 

 

 

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